L’Artmaniaque : Abr/05
L’artmaniaque, Paris
Entrevista concedida a Julien Geffray.
(clique para ver a versão original da entrevista, no site da Artmaniaque)
2005, Ano do Brasil na França! Estimulado por essa idéia, tive o prazer de freqüentar os grupos de brasileiros implantados em Paris. Estudantes, engenheiros, alguns residentes, outros de passagem… Um ponto em comum: a festa da música! Quando conheci Luiz De Simone estávamos em torno de uma mesa de brasileiros muitos animados no bar Polly Magoo, no bairro de Saint Michel, onde há shows todas as noites.
Luiz, sucumbindo à pressão coletiva, dirigiu-se ao piano para interpretar uma de suas composições. Diante de um piano em frangalhos ele transformou o tumultuado ambiente em uma sessão melódica, como um minuto de doçura no meio da orgia sonora.
No dia seguinte Luiz deu um concerto no L’Entrepôt, no sul de Paris. Todos os presentes à noite anterior lá estavam para assistir à magistral apresentação feita por esse tão jovem e virtuoso músico. A beira das lágrimas, precipitadas ao ritmo das variações musicais, o público, após uma hora de pura magia, viu-se tão exaurido quanto o artista, com as pernas bambas, mas em êxtase.
Após seu retorno ao Brasil, propus ao Luiz uma entrevista pela internet, aceita por ele de bom grado. E eis, meus caros leitores do L’Artmaniaque, em primeira mão aqui na França, a entrevista com o pianista Luiz De Simone.
Julien Geffray: Pode se apresentar brevemente? Da onde você vem, e como chegou a ser pianista profissional…
Luiz De Simone: Meu nome é Luiz De Simone, nome que vem diretamente do meu bisavô, Luiggi Di Simone.
Sim, ele era italiano, mas não tenho nacionalidade nem nada do tipo, infelizmente. Seria muito útil para fazer minhas andanças pela Europa.
Comecei a estudar piano aos 12 anos de idade após ter ouvido atentamente o concerto para piano e orquestra de Schumann.
Eu comecei mais compondo, coisa que amava fazer, mas em seguida aquilo tudo me pareceu meio sem propósito e passei a me dedicar a ser um intérprete.
Me dediquei bastante, obstinadamente, até meus 18 anos, quando chegou a hora de decidir que caminho seguir da vida.
Foi natural seguir o caminho da música e aqui estou eu.
Desde os 20 anos que viajo muito me apresentando aqui pelo Brasil.
E, recentemente, chegou a hora de começar a me apresentar fora do país.
JG: Você tem feito vários concertos na Europa e em particular na França. Por que escolheu esses países para desenvolver tua carreira?
LDS: Bom, de uns anos pra cá voltei a compor com todo o gás.
Começou com música para minha banda de rock progressivo e aos poucos voltei a criar para o piano, meu instrumento, onde ganho a vida.
Ano passado, 2004, lancei um disco com algumas composições para piano solo chamado EP – Ensaio Pianístico.
Este disco foi oferecido como presente de final de ano da empresa Moneypoint, de Bordeaux.
Os clientes receberam pelo correio o disco, que também tinha uma parte multimídia, com fotos, entrevista e material publicitário da empresa.
Exisitia planos para que eu me apresentasse em Bordeaux e foi daí que nasceu a possibilidade de ir pra França tocar minhas músicas.
JG: Você sabe que 2005 eh o ano do Brasil na França. Você vai participar de eventos culturais nessa ocasião?
LDS: Sim. Embora as datas precisem ainda ser definidas e confirmadas, tenho concertos sendo negociados em Paris, Lyon e Toulouse.
JG: Você vai tocar as músicas que eu ouvi no seu concerto do ano passado aqui em Paris?
LDS: Sim, todas.
O concerto será o mesmo, pois faz parte ainda dos concertos de lançamento do meu disco.
Minha intenção continua sendo a de divulgá-lo o máximo possível.
E como vou tocar na Alemanha também, pela primeira vez, resolvi montar o mesmo concerto, mesmo porque a cada evento estarei me apresentando para um público diferente, mesmo em Paris e Lyon, onde me apresentei no ano passado.
JG: Viajando assim, você se sente um pouco representante do Brasil fora de America Latina?
LDS: É inevitável sentir que se veste a camisa do seu país quando nos apresentamos no exterior.
Sou identificado como brasileiro. Questão de identidade mesmo, e aceitamos isso.
E, de certa forma, pelo menos nessa lado de criação musical livre, represento uma das milhares de facetas da música que é feita hoje no Brasil, ainda que minhas composições não tenham uma “brasilidade” tão evidente.
Qualquer músico criador que mostrar sua obra fora de seu país será representante do desenvolvimento musical da sua pátria.
Acho que isso se dá naturalmente, tanto por quem faz como por quem assiste.
JG: Você me disse que começou tocando rock. Como chegou a tocar música clássica, enquanto parece ao jovem muito fora de moda?
LDS: Comecei no clássico, que sempre foi minha principal vertente musical, e não o contrário.
Anos depois entrei pro Sigma 5, meu grupo de rock progressivo, e atualmente gravamos nosso terceiro disco. O Sigma 5 é como se fosse um hobby de todos os integrantes. Não vivemos disso, não dependemos disso. Levamos a banda adiante porque curtimos o que fazemos e aqui no Brasil já existe um público específico que acompanha nosso trabalho, compra nossos discos. É muito gratificante, criativo e produtivo fazer parte dessa engrenagem.
O Sigma 5 representou na minha vida uma volta à minha atividade de compor. A partir daí essa atividade de criação voltou a polarizar toda minha vida musical.
Mas o piano, o mundo da música erudita, sempre esteve presente. Aliás, sempre foi o principal de tudo. É na música erudita que faço a minha vida mesmo.
JG: Como é vista música clássica no Brasil? É um pouco diferente da idéia que temos aqui da música brasileira?
LDS: O público de música clássica é muito seleto.
O mundo da música erudita tem vida, é muito ativo, principalmente nas maiores capitais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, dentre outras, mas funciona para uma parcela determinada da população. Não é algo popular, infelizmente.
Existem tentativas de fazer a música erudita algo popular, mas acho que nem na Europa isso é mais assim, não? A música ouvida e consumida pelos jovens é outra (estou falando diretamente em relação aos jovens).
JG: Aqui também é muito ultrapassado ouvir música clássica, digo isso enquanto jovem, é mais uma coisa pra se ouvir em um concerto de vez em quando.
Falando de música brasileira, você tem modelos nacionais, gente que te inspirara?
LDS: Meu ídolo maior é Chico Buarque. Gosto muito de tudo o que ele faz.
Tem pianistas-compositores que curto muito, ainda que sejam de uma vertente mais popular, como Marcos Ariel, Luiz Avellar…
Curto muito Villa Lobos e todo o seu legado monumental para a música brasileira e universal.
Mas meus ídolos criadores mesmo acabam sendo de todas as partes…
O que crio e componho é muito universal, muito de toda parte, de todo estilo…
Dessa forma também sinto uma influência de bandas de rock progressivo, como Dream Theater e Spock’s Beard, sobretudo esta última por ter sido criada e liderada por um dos músicos mais brilhantes da atualidade em minha opinião: Neal Morse.
Na verdade é difícil nomear tudo, são tantas as minhas influências.
JG: Um detalhe que não é evidente pra mim, o que é exatamente rock progressivo?
LDS: Existe um conceito, eu diria, que define a música progressiva como sendo uma música que tem a forma bem desenvolvida, não se limitando a uma fórmula básica comercial, como é feita a música pop, por exemplo (e que não tenho nada contra, pelo contrário).
As músicas se permitem ser longas, com muitas partes distintas, com material musical muito desenvolvido e variado…
A música erudita é tida como progressiva, neste aspecto.
Ela não se limita de forma nenhuma. A música pode começar de um jeito, apresentar temas de determinado caráter, mas essa estrutura pode evoluir em diversas direções e muitas outras sessões podem surgir, apresentando temas e climas diferentes…
Por isso temos músicas tão longas no mundo clássico.
Leva tempo até que se desenvolva tantas idéias e temas e não há preocupação com tamanho da música por razões comerciais ou algo do tipo (as músicas comerciais, que tocam no rádio, por exemplo, não podem ultrapassar determinada duração).
O rock progressivo é muito assim também, não se prende a nada e é concebido com grande grau de detalhe.
Músicas longas, com várias partes, às vezes músicas que ocupam um disco inteiro, com abordagem musical muitas vezes similar à música erudita.
E por aí vai.
Deu pra entender?
Alguns exemplos (em diferentes estilos): Yes, Genesis, Dream Theater, Spock´s Beard, Pink Floyd, Gentle Giant, Rush…
JG: Qual é a mensagem que você quer passar, especialmente quando você toca músicas do Maximiliano Santiago?
LDS: Tocar as músicas do Max é um compromisso que tenho com ele.
É como uma promessa de vida.
Enquanto eu for vivo e tiver possibilidades de me apresentar e poder transmitir uma mensagem para uma audiência, sua música e sua história não serão esquecidas.
E, digamos, nesses concertos de piano solo eu não toco nada dele, infelizmente. Toco somente uma música que fiz pra ele, chamada Cabo da Boa Esperança, e que gravamos juntos, pois é um duo para piano e guitarra.
Posso contar a história dele, procurando resumir ao máximo?
JG: Por favor…
LDS: Maximiliano Santiago morreu com 21 anos de idade, vítima de câncer.
Era um guitarrista fabuloso que lutou muito contra sua doença na esperança de deixar uma obra sua, um legado. Ele ia pro estúdio gravar seu disco mesmo sem ter condições, mesmo sem agüentar ao menos ficar sentado para tocar.
Deixávamos que ele ficasse deitado e de tempos em tempos ele gravava algumas partes de guitarra. E assim foi, com muita luta, que gravou o seu disco de guitarra.
Quase todas as músicas são composições suas e tive a honra de fazer parte da banda que gravou o disco. É uma formação básica de rock: bateria, baixo, teclado e guitarra.
Eu tocava o teclado, naturalmente.
A questão é que ele morreu muito antes que pudéssemos concluir todas as etapas do seu disco. Pra falar a verdade ele não teve tempo de gravar ainda uma última música, um pequeno duo de piano e guitarra. No disco finalizado essa faixa aparece em piano solo.
Ano passado, depois de três anos de sua morte (2001), conseguimos enfim lançar seu disco: “Maximiliano Santiago…Definitivo???.
O disco foi lançado pelo selo Rock Symphony, especializado em rock progressivo, e desde então reunímos a banda que gravou o disco, convidamos o grande guitarrista Lula Wash para substituir o Max e temos feito muitos shows no Rio de Janeiro.
É emocionante ver que sua obra, mesmo em ele não estando mais aqui, é tocada e apreciada.
Os shows estão sempre lotados e o público sempre se emociona muito.
Espero que um dia tenhamos oportunidade de levar esse show para a Europa.
Mas, por ser uma banda, é muito difícil. Fico torcendo, no entanto…
Como vês, tenho mil projetos como músico. Dá um trabalho…
Mas o principal trabalho mesmo, eu diria, é o meu projeto de piano solo, tocando as minhas músicas e divulgando o meu cd EP – Ensaio Pianístico.
JG: Você quer passar uma mensagem de permanência da lembrança, então? Para não nos esquecermos daqueles que trabalharam sem ver os frutos do seu esforço?
LDS: O Max criou, em vida, um Projeto em parceria com o INCA chamado Viver e Crescer.
Esse projeto passa essa mensagem de nunca desistir dos seus sonhos, lutar até o fim para realizar aquilo que se quer.
Disso é feita a vida. De sonhos e da busca e luta por realizá-los. Max deixou uma marca neste sentido, é um exemplo de como tirar o melhor proveito do tempo que nos é dado para viver.
Através do Projeto Viver e Crescer fazemos com que toda a renda da venda do disco “Maximiliano Santiago…Definitivo” seja revertida ao INCA (Instituto do Câncer – no Brasil).
Essa é uma das partes mais legais dos shows que fazemos divulgando seu disco.
Além de ser super emocionante, ainda ajudamos o INCA.
JG: Você sabe que as juventudes brasileiras e francesas tem um espírito bem diferente. Os franceses sempre procuram uma identidade própria. A música lhe permite sentir isso, com as reações do público? Eles tem reações diferentes à sua música?
LDS: Não sei se estou bem certo se entendi sua pergunta. Você fala da reação do público em relação à minha música? E como detecto a diferença entre os públicos brasileiro e francês?
JG: Isso.
LDS: Que pergunta difícil… Pois é difícil captar essas sutilezas, ainda mais que não tive muito contato com o público francês.
Do que pude ver, me surpreendi bastante com a receptividade às minhas composições tanto em Lyon como em Paris.
Aqui no Brasil também sinto uma reação calorosa, mas creio que de certa forma eu falo uma linguagem muito mais européia do que brasileira.
Creio que um europeu ouve minha música mais facilmente do que um brasileiro.
Eu tinha um certo medo. “O que vão achar da minha música, será que vai agradar tocar essas coisas num ambiente de música clássica na Europa????
Porque o que componho não é música erudita, mas uma música livre.
Mas não tive razões para cultivar este medo, pois a recepção foi muito melhor do que eu poderia imaginar. São só impressões, de qualquer forma…
JG: Certo. Agora a pergunta eterna, o que acha do peer to peer (kazaa, emule, etc)? Você gostaria de ter todo mundo baixando suas músicas ou fica revoltado com isso?
LDS: Não tenho nada contra. Aliás, já estava pensando na possibilidade, no meu próximo disco, de não lançar o disco fisicamente. Simplesmente disponibilizar as músicas. Ou de graça ou cobrando um valor simbólico. Gosto da idéia de que minha música chegue facilmente a todos, sem obstáculos. É até por isso que vendo meu disco bem barato.
Mas depois vi que o disco físico é importante também.
Talvez este dia chegue, em que o disco físico não seja necessário, mas por enquanto acho ainda fundamental.
Por exemplo, alguém vai a um concerto meu e fica com vontade de levar minhas músicas para casa. Tem muita gente que ainda não vive essa estrutura de pegar músicas na internet, ouvir pelo computador…
É importante ter a opção do CD físico para possibilitar que sua música seja consumida no decorrer das apresentações e concertos.
E, poxa, nada como pegar o cd em mãos, né?
O encarte, as fotos, os textos, a arte do disco… O cheiro de novo…
Isso tudo é a magia das coisas reais, palpáveis. Não vejo razão pra esse tipo de coisa deixar de existir.
JG: Alias, você tem un site internet?
LDS: Tenho um site: www.luizdesimone.com
E o Maximiliano também: www.maximilianosantiago.com
E minha banda também: www.sigma5.com
JG: Obrigado! Tem uma coisa que você gostaria de dizer?
LDS: Eu queria muito mesmo te agradecer por este papo.
Espero ter a oportunidade de mostrar meu trabalho em muitos lugares e permaneço lutando para abrir frentes onde me for possível.
Criar e depois mostrar o resultado. Isso me define.
Enquanto estiver fazendo isso, estarei vivo e feliz.
Obrigado mesmo e um grande abraço!

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