Leituras…
Minha última visita à irresistível Livraria da Travessa do Leblon, lugar que aprendi a não ir (talvez tarde demais) se não quiser ceder ao impulso incontrolável de comprar livros, rendeu-me a aquisição de alguns espécimes que há muito eu namorava à distância. Para citar alguns dos já devorados: Viagens no Scriptorium e Desvarios no Brooklin, de Paul Auster, e Novecentos, de Alessandro Baricco.
Minha vontade de ler os dois últimos livros do Paul Auster vem da leitura do seu Noite do Oráculo, romance muito criativo em que ele explora o universo da criação literária (assunto que muito me interessa, aliás). O protagonista compra um caderno azul na loja de um misterioso oriental e tudo o que ele escreve no tal caderno realmente acontece. O livro tem um final meio do nada, mas gostei muito e fiquei pregado até a última página. De certa forma Viagens no Scriptorium e Desvarios no Brooklin também falam do ato de escrever. Não curti tanto o Viagens, a trama me pareceu meio solta demais, mas entendo que o livro serve como uma aventura real do autor pelo mundo da criação literária. É interessante vê-lo totalmente entregue à história, talvez sem pensar muito que caminho seguir… Fora isso, não me atraiu muito. Já Desvarios é um excelente livro e gostei muito mesmo do modo como ele construiu a trama, que também fala de um coroa que descobre que vai morrer e se muda para o Brooklin, bairro onde nasceu, e começa a escrever sobre suas últimas experiências no multicultural bairro novayorkino. As últimas páginas são particularmente especiais. Bravo, Mr Auster.
Mas a grande pérola mesmo vem de Novecentos - um monólogo, do italiano Alessandro Baricco, um livrinho curto que a princípio serve como roteiro teatral. Li em pouco mais de duas horas e fiquei absolutamente atônito com a beleza da história, com a refinada e poderosa habilidade que Baricco tem com as palavras. É um livreto que arranca risos em alto volume e ao mesmo tempo deixa nossos olhos marejados. Uma verdadeira pérola. Não é à toa que Giuseppe Tornatore, diretor do lindíssimo Cinema Paradiso, resolveu transformar o monólogo num filme, conhecido aqui no Brasil como A Lenda do Pianista do Mar. O longa, assim como Cinema Paradiso, conta com a trilha sonora de um dos meus ídolos da música para cinema, Ennio Morricone (a trilha de Paradiso é notoriamente das músicas mais lindas jamais compostas em toda a história do mundo). Vi A Lenda do Pianista do Mar há muitos anos (o filme é de 1999, com Tim Burton no papel principal) e me lembro de ter gostado muito. Preciso rever. Simplificando muito a trama, trata-se de um camarada chamado Novecentos (por ter nascido no ano de 1900) que nasceu e passou a vida inteira à bordo de um navio, sem jamais ter colocado os pés em terra firme. Tornou-se um pianista mágico, que tocava uma música que parecia vir de outras esferas no grand piano que havia à bordo, no salão de festas do navio. O então dito inventor do jazz, Jelly Roll Morton, fica sabendo da fama de Novecentos e resolve embarcar no navio e desafiá-lo para um duelo. Recomendo muito, deixando até este link para quem se interessar em comprar o livro, que não é nada caro. A compra pode ser feita online e em pouquíssimos dias o livro nos é entregue pelo correio. Quer mais moleza do que isso?
Bom, já falei demais, mas queria compartilhar essas novas descobertas literárias, já que ler é uma das coisas que mais gosto de fazer e está sempre presente no meu dia a dia. Arrisco até mesmo a dizer que me inspira muito em tudo o que crio, seja música ou qualquer outra coisa. Não sei quem me disse isso, mas concordo muito e roubei a frase para mim: “eu sou os filmes que vejo e os livros que leio”. Eu ainda acrescentaria, para fechar com chave de ouro: “e as músicas que ouço”, embora esta última, no meu caso, seja tão óbvia que é até desnecessário dizer. :)
29/07/2008 às 4:50
8 comentários
Comentários
Comentário de rodrigot
5/08/2008, 14:24
Tim Roth, não Burton. :-)
Comentário de Luiz De Simone
5/08/2008, 15:07
Ah, esqueci! No início pensei que o filme era mesmo do Tim Burton (diretor), mas depois vi que era com o Roth (ator) e que tinha meramente confundindo os Tims. Na hora de escrever acabei colocando o Burton mesmo e ainda o meti como ator no papel principal.
Você já sabia disso ou foi visitar o Internet Movie DataBase para ver que raio de filme era esse do Burton? Hehehe…
Comentário de Dandara
6/08/2008, 16:35
É engraçado, quando viro a noite, o sono me deixa meio tagarela e com um senso de humor aguçado, hoje seria um bom dia pra postar um comentário aqui e descascar o Auster, mas ele me deprime e prefiro não entrar nessa =) …
… ‘ta bom!
O que li dele foi o Trilogia de Nova York. Minha mãe é fã do Auster e falou tão bem do livro, que mesmo que não fossem contos de detetive (os meus preferidos) eu teria dado uma chance na hora. Só que eu não estava preparada psicologicamente pra entrar naquele mundo estranho, denso e tão humanamente verossímil, sei lá… na primeira história vemos e sentimos o investigador/autor (stalker absurdo) se tornando um mendigo lentamente, por conta de uma obsessão pelo seu caso, que pode, na verdade, nem existir. Aquilo mexeu muito comigo e embora eu tivesse percebido que a leitura não seria tão “agradável” quanto minha mãe havia descrito, resolvi dar uma chance para o segundo conto.. É quase como se tivesse pulado esse tempo na minha vida. Não lembro de NADA do 2º conto. Precisei ir num site agora pra me lembrar da história e mesmo assim, acho que apaguei total! Lembro que o último começa melhor, mas se desenvolve de forma tão angustiada quanto os outros dois…
…Ok, não quero mais ler verdades nuas, cruas e pesadas e crises de identidade absurdas. Talvez em outro momento da minha vida. O cara escreve muuito bem, não fosse por isso eu teria ficado na metade da primeira história, mas acho que a melhor sensação do mundo (ou a terceira) é ler o livro certo no momento em que ele vai fazer a diferença.
Tá bom, fez diferença, mas deixou um gosto ruim.
Comentário de NRO…
7/08/2008, 19:47
Fui surpreendida com a leitura de NOVECENTOS.
Uno di libri che non chiudere finchè non sei arrivato all’ultima pagina (Um dos livros não fechei sem que chegasse a última pagina). Gastei todo meu italiano em homenagem ao Baricco. hehehe!!!!
As lembraças de alguns trechos, arranca-me um sorriso no canto da boca.
O linguajar é fidedigno considerando-se o ambiente em que se passa e os personagens.
Sem falar na “pureza” que com rapidez é transformada em astúcia pelo Novecentos nas páginas em que relata o duelo.
“Desarmei a minha infelicidade. Livrei a minha vidas dos meus desejos”.
Molto bello!
Uno bacio.
Grazie Luiz.
Comentário de NRO…
7/08/2008, 19:52
NOVECENTOS, esse livro fez a diferença, mas deixou um gosto bom. rsrsrsrss…
Uno abbraccio…
Luiz
Comentário de rodrigot
7/08/2008, 21:55
É, eu pensei “Tim Burton atuando, que merda é essa?” e fui procurar.
Esse filme já me mandaram ver muitas vezes mas nunca o fiz.
Comentário de moriah
14/08/2008, 21:41
A Sapeca é realmente uma livraria incrível! Gostaria muito que abrissem uma aqui em Sampa.
Comentário de Luiz De Simone
25/08/2008, 1:39
Moriah (para mim sempre Florência), depois de vários dias pensando que você tinha ficado meio tan-tan, enfim enxergo melhor agora. Travêssa = Sapeca ? Carácoles… Você foi longe agora. =)
Qual o correspondente da Travessa em SP? A Cultura?

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